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Como o n8n revolucionou o mercado sem inventar a roda

15 min de leitura
Como o n8n revolucionou o mercado sem inventar a roda

A revolução silenciosa da automação de workflows finalmente chegou às mãos de todos. Durante mais de uma década, automatizar processos entre diferentes sistemas era privilégio de grandes corporações com orçamentos generosos ou dependia de ferramentas que cobravam caro por cada pequena ação executada.

Então surgiu o n8n.

Uma plataforma de código aberto criada em Berlim que, em menos de seis anos, conquistou mais de 163.000 estrelas no GitHub, n8n ultrapassou 230.000 usuários ativos e atingiu uma avaliação de $2,5 bilhões em outubro de 2025. Mais importante que os números: o n8n provou que era possível construir automações poderosas sem gastar fortunas nem entregar o controle dos dados a terceiros.

Este artigo analisa profundamente como a automação de workflows evoluiu, por que as ferramentas tradicionais criaram barreiras artificiais e como o n8n quebrou esses paradigmas. Este é um artigo denso, longo com muita pesquisa! então estejam preparados, senta que lá vem história!

O mundo antes do n8n: uma década de automação para poucos

Para entender o impacto do n8n, precisamos primeiro examinar o cenário que existia antes de sua chegada. A história da automação de workflows para não-programadores começa em 2010, quando a ideia de conectar aplicações sem escrever código parecia revolucionária.

IFTTT e o nascimento da automação simples

Em dezembro de 2010, Linden Tibbets e seu irmão Alexander lançaram o IFTTT (If This Then That) em São Francisco. A proposta era elegante em sua simplicidade: criar receitas automáticas baseadas em gatilhos únicos. Se chover, envie uma notificação. Se postar no Instagram, salve a foto no Dropbox.

A plataforma rapidamente conquistou milhões de usuários — chegando a 32 milhões — mas sua arquitetura fundamental impunha limitações severas.

O IFTTT funcionava apenas com fluxos lineares de uma única etapa. Não havia como criar ramificações condicionais, loops ou transformações complexas de dados. Era automação para consumidores, não para negócios que precisavam orquestrar processos sofisticados.

Quando a empresa implementou um modelo freemium em setembro de 2020, limitando usuários gratuitos a apenas três applets, a comunidade reagiu com frustração. A ferramenta que prometia simplicidade revelou suas limitações estruturais.

Zapier e a consolidação do modelo task-based

Um ano depois do IFTTT, em outubro de 2011, três desenvolvedores freelancers — Wade Foster, Bryan Helmig e Mike Knoop — perceberam que construíam as mesmas integrações repetidamente para diferentes clientes. Dessa frustração nasceu o Zapier, que se tornaria o gigante da categoria.

A empresa cresceu de forma impressionante: passou pelo Y Combinator em 2012, atingiu lucratividade em 2014 com apenas $1,4 milhão em investimentos totais, e chegou a $310 milhões em receita recorrente anual em 2023. A avaliação alcançou $5 bilhões em 2021. O Zapier provou que existia demanda massiva por automação no-code.

Porém, o modelo de precificação do Zapier criou um problema fundamental. A plataforma cobra por tasks — e cada ação dentro de um workflow conta como uma task separada. Um fluxo com 10 etapas processando 200 pedidos por dia consome 60.000 tasks mensais. Nos planos pagos, isso podia facilmente ultrapassar $899 por mês. Para startups e pequenas empresas, os custos escalam exponencialmente conforme a operação cresce.

Além disso, certas integrações são classificadas como "premium", exigindo upgrades de planos mesmo quando o volume de uso ainda é baixo. O modelo incentiva workflows simples — o oposto do que empresas em crescimento precisam.

Integromat e Make

Enquanto isso, em Praga, uma equipe liderada por Ondřej Gazda desenvolveu o Integromat a partir de 2012, lançando o produto em 2016. A plataforma se destacou por oferecer um construtor visual mais sofisticado, com suporte a lógica condicional avançada e manipulação de dados complexa.

Em outubro de 2020, a Celonis adquiriu o Integromat por mais de $100 milhões. Na época, a empresa tinha 10.000 clientes, 60 funcionários e crescia 400% ao ano. Em fevereiro de 2022, a plataforma foi rebatizada como Make, posicionando-se como a versão enterprise do Zapier.

O Make trouxe inovações importantes, mas manteve o modelo de precificação baseado em operações. Cada ação — incluindo verificações de triggers por polling — consome créditos. Usuários frequentemente relatam surpresas nas faturas quando descobrem que operações "invisíveis" estavam consumindo seus limites. Integrately

Microsoft Power Automate e o mundo enterprise

A Microsoft entrou no mercado em novembro de 2016 com o Microsoft Flow, renomeado para Power Automate em novembro de 2019. A proposta era clara: integração profunda com o ecossistema Microsoft 365, Dynamics 365 e Azure.

Para organizações já comprometidas com o ambiente Microsoft, o Power Automate oferece vantagens inegáveis. Mas o modelo de licenciamento por usuário ($15/usuário/mês no plano Premium) torna a ferramenta cara para equipes grandes. Funcionalidades de RPA (Robotic Process Automation) custam $150/bot/mês adicionais. E a complexidade técnica exclui usuários não-técnicos que poderiam se beneficiar de automações simples.

Workato, Tray IO e o gap enterprise

No topo da pirâmide, ferramentas como Workato (avaliada em $5,7 bilhões em 2021) Globalindiantimes e Tray IO (avaliada em $600 milhões) ofereciam capacidades enterprise sofisticadas. Clientes como Coca-Cola, GE e PwC utilizam essas plataformas para orquestrar processos críticos.

Mas os preços refletem o posicionamento: contratos anuais de dezenas ou centenas de milhares de dólares colocam essas soluções fora do alcance de startups, scale-ups e departamentos com orçamentos limitados. O mercado estava polarizado, ferramentas acessíveis mas limitadas de um lado, plataformas poderosas mas inacessíveis do outro.

As quatro barreiras que impediam a democratização

Antes do n8n, quatro obstáculos estruturais mantinham a automação de workflows como privilégio de poucos.

Barreira 1: A precificação que pune o crescimento

O modelo task-based ou operation-based das principais ferramentas criava uma armadilha perversa: quanto mais uma empresa automatizava, mais cara ficava a automação. Um workflow que economiza 10 horas semanais pode custar mais do que contratar uma pessoa para executar a tarefa manualmente. A matemática frequentemente não fechava para pequenos negócios.

Analisando cenários típicos, um workflow de média complexidade com 20 etapas executado 500 vezes por mês consome 10.000 tasks no Zapier, custando aproximadamente $199/mês. O mesmo volume em workflows mais complexos pode ultrapassar $899 mensais.

Para uma startup validando seu produto, esses valores representam uma fração significativa do runway.

Barreira 2: Cloud-only significa zero controle sobre dados

Todas as ferramentas dominantes até então eram exclusivamente baseadas em nuvem. Os dados das automações — incluindo tokens de acesso, informações de clientes e conteúdo de documentos — fluíam através de servidores de terceiros, predominantemente localizados nos Estados Unidos.

Para empresas europeias sob GDPR, organizações de saúde sob HIPAA, ou simplesmente negócios com políticas rígidas de segurança, isso criava um impasse. Automatizar significava abrir mão de compliance.

A alternativa era não automatizar - e perder competitividade.

Barreira 3: O vendor lock-in sem rota de escape

Workflows construídos no Zapier não podiam ser exportados para o Make. Automações no Make não podiam ser migradas para o Power Automate. Cada hora investida aprendendo uma plataforma representava um compromisso enorme com aquele vendor específico. Se os preços subissem, se a empresa mudasse suas políticas, ou se uma funcionalidade crítica fosse descontinuada, o custo de mudança seria reconstruir tudo do zero.

Essa dependência estrutural dava poder desproporcional aos fornecedores.

Barreira 4: Desenvolvedores tratados como segunda classe

Para programadores, as ferramentas existentes eram frustrantes. O Zapier permite snippets de JavaScript e Python, mas com limites severos: 30 segundos de execução, 256MB de memória, sem bibliotecas externas. Não há como debugar adequadamente, versionar código com Git, ou integrar com pipelines de CI/CD.

Desenvolvedores que queriam criar integrações customizadas precisavam usar APIs proprietárias das plataformas, aprender formatos específicos e aceitar restrições arbitrárias. A ironia: ferramentas criadas para eliminar trabalho repetitivo criavam novos tipos de trabalho repetitivo.

O nascimento da n8n em Berlim

É nesse contexto que entra Jan Oberhauser, um desenvolvedor alemão com uma trajetória incomum, aparece.

Antes de criar software de automação, Jan trabalhou na indústria de efeitos visuais de Hollywood. Entre 2010 e 2014, passou por estúdios como Rising Sun Pictures, Pixomondo e Digital Domain, contribuindo para filmes como Maleficent e Happy Feet Two. Uma parte crucial do trabalho em VFX é automatizar pipelines - garantir que arquivos fluam entre artistas, que renders sejam processados automaticamente, que assets sejam versionados corretamente. Jan se tornou especialista em eliminar fricção de processos repetitivos.

Da frustração pessoal ao projeto paralelo

Quando Jan deixou a indústria cinematográfica e fundou startups como Link Fish e Showreel, ele enfrentou a mesma necessidade de automação. Testou as ferramentas disponíveis e encontrou todas insatisfatórias: caras demais, inflexíveis demais, ou com documentação inadequada.

A solução foi construir sua própria ferramenta. Durante aproximadamente um ano e meio, enquanto trabalhava em outros projetos para pagar as contas, Jan desenvolveu o n8n como projeto paralelo. A motivação era prática: ele precisava de algo que funcionasse com APIs obscuras, permitisse self-hosting para proteger dados de clientes, e desse acesso ao código fonte para debugging.

O nascimento oficial do n8n

A n8n GmbH foi fundada em junho de 2019 em Berlim. O primeiro commit público no GitHub também data de junho. Em outubro de 2019, Jan fez um post no Hacker News apresentando o projeto ao mundo: a reação foi imediata e entusiástica.

Curiosidade: O nome "n8n" é um numerônimo de "nodemation" - combinando "node" (referência tanto à interface visual de nós quanto ao Node.js que alimenta a plataforma) com "automation". Jan escolheu a abreviação porque não queria digitar um nome longo no terminal toda vez que executasse comandos.

A decisão de não ir para o Vale do Silício

Sim, enquanto todos queriam ir pra lá, Jan pensou exatamente o contrário.

Um momento definidor veio cedo: o Y Combinator — a mesma aceleradora que impulsionou Zapier, Dropbox e Airbnb — convidou Jan para participar de um batch. Ele recusou. Com uma família jovem em Berlim, Jan não queria se mudar para São Francisco.

Essa decisão moldou a identidade da empresa. O n8n permaneceu europeu, com valores diferentes dos típicos do Vale do Silício. A ênfase em privacidade de dados, em sustentabilidade de negócio em vez de crescimento a qualquer custo, e em construir uma comunidade genuína reflete essa origem.

O que o n8n fez de diferente?

O n8n não inventou a automação de workflows, não reinventou a roda, ele na verdade já entrou em um mercado validade e estruturado, podendo cobrar caro e forçar o vendor lock-in facilmente. Mas ele reimaginou suas regras fundamentais.

Veja as quatro decisões arquiteturais distinguem a plataforma de qualquer outra:

Código disponível sob modelo fair-code

Em vez de criar mais uma ferramenta proprietária, Jan optou por disponibilizar o código fonte. Mas não como open source tradicional — o n8n adota o modelo fair-code (cada vez mais comum), um termo que a própria empresa ajudou a cunhar em 2020. O que isso significa na prática? O código está no GitHub para qualquer pessoa examinar, modificar e aprender.

Empresas podem fazer self-hosting gratuitamente para uso interno, sem limites de execuções. n8n Docs Desenvolvedores podem criar extensões e integrações customizadas. As restrições existem apenas para uso comercial: você não pode pegar o n8n, criar um serviço de hosting e vendê-lo como seu próprio produto. Também não pode criar ferramentas comerciais cuja funcionalidade principal dependa do n8n processando credenciais de clientes. n8n Docsn8n Docs

A licença atual (Sustainable Use License) protege a sustentabilidade do projeto enquanto maximiza a liberdade dos usuários. Para 99% dos casos de uso (automação interna de empresas, projetos pessoais, consultoria), funciona muito bem como software livre.

Self-hosting gratuito e ilimitado

Essa foi a decisão mais disruptiva: qualquer pessoa pode rodar o n8n em sua própria infraestrutura, gratuitamente, com execuções ilimitadas. n8n Um servidor de $5-10 por mês em qualquer provedor de nuvem é suficiente para começar. Baytech Consulting Para quem prefere, existe também a opção de Docker ou Kubernetes.

As implicações são profundas. Dados sensíveis nunca saem da infraestrutura da empresa. Compliance com GDPR, HIPAA ou políticas internas de segurança torna-se trivial. Não há vendor lock-in porque o código está disponível — se o n8n desaparecesse amanhã, os workflows continuariam funcionando.

Para desenvolvedores e equipes técnicas, self-hosting significa total controle. Quer instalar bibliotecas npm customizadas? Pode. Quer conectar a bancos de dados internos sem expor portas? Pode. Quer rodar em air-gapped environments sem conexão com internet?

Pode.

Precificação por execução, não por task

A terceira revolução está no modelo de negócios. O n8n cobra por workflow executado, não por ação individual. Um workflow com 50 etapas que processa 1.000 registros conta como 1.000 execuções - não como 50.000 tasks. A diferença econômica é brutal. Vamos comparar um cenário real: um workflow de e-commerce com 20 etapas que processa 500 pedidos por mês

Para workflows complexos em alto volume, o n8n pode ser 10 a 50 vezes mais barato. Isso muda fundamentalmente quais automações fazem sentido economicamente.

Liberdade total para código

Por fim, o n8n trata desenvolvedores como primeira classe. É possível escrever JavaScript ou Python completo dentro dos workflows, sem limites de tempo de execução (no self-hosted, claro) ou restrições de memória arbitrárias. Mais que isso: você pode importar qualquer biblioteca npm, executar comandos de terminal, fazer chamadas GraphQL nativas, e até importar diretamente comandos cURL. Quer integrar com uma API interna que não tem conector oficial? Basta escrever algumas linhas de código.

O editor permite debugging visual em tempo real, mostrando inputs e outputs de cada nó durante a execução. Para equipes técnicas, isso representa produtividade dramaticamente maior que tentar debuggar em plataformas black-box.

Na prática, como n8n impactou o mercado?

A combinação dessas características removeu barreiras que mantinham milhões de potenciais usuários de fora. Startups finalmente conseguem automatizar desde o dia 1.Antes do n8n, startups em estágio inicial enfrentavam um dilema: gastar recursos escassos em ferramentas de automação ou executar processos manualmente até ter escala suficiente. O n8n elimina essa escolha falsa.

Com self-hosting gratuito, uma startup pode implementar automações sofisticadas gastando menos que uma pizza por mês em infraestrutura. Conforme a empresa cresce, os workflows escalam sem surpresas na fatura.

Experiência pessoal: eu gasto menos de R$ 40,00 por mês com n8n!

O caso da Bordr ilustra isso perfeitamente. A empresa começou como projeto paralelo e, usando n8n para integrar Paperform, Postmark, Stripe e Airtable, conseguiu crescer para um negócio de seis dígitos em questão de meses.

A automação que seria inviável com pricing por task tornou-se enabler do crescimento.

Integrações foram surgindo naturalmente

O n8n nasceu com centenas de integrações nativas, mas sua verdadeira força está no ecossistema:

  • Mais de 400 nós nativos cobrem os casos mais comuns

  • A comunidade criou mais de 2.200 extensões

  • Existem mais de 900 templates de workflows prontos

A IA terminou de alavancar o fenômeno n8n

A partir de 2022, quando LLMs como GPT-3 começaram a demonstrar capacidades práticas, o n8n se posicionou como plataforma ideal para orquestrar workflows de IA.

O n8n oferece mais de 70 nós relacionados a LangChain, o framework dominante para construção de aplicações de IA. Conectores nativos existem para ChatGPT, Claude, Gemini, além de suporte a modelos locais via Ollama. Isso significa que empresas podem construir chatbots, sistemas de análise de documentos, assistentes automatizados e agentes de IA usando a mesma interface visual familiar.

Curiosidade: 75% dos clientes já usam funcionalidades de IA

Como mencionei antes, self-hosting é o diferencial crítico: é possível rodar modelos de linguagem localmente e orquestrá-los com n8n, mantendo dados sensíveis completamente privados.

O que esperar do futuro da automação pós-n8n?

O n8n não apenas mudou o presente — está moldando o futuro da categoria. A linha entre "automação de workflows" e "agentes de IA" está desaparecendo. Plataformas como n8n permitem construir sistemas onde LLMs tomam decisões, acessam ferramentas, e executam ações. É o que muitos chamam de "agentic AI".

O sucesso do n8n valida um modelo de negócios alternativo ao open source puro (que frequentemente não sustenta - e não sustenta - empresas) e ao proprietário fechado (que limita adoção). Para desenvolvedores e empresas, isso significa mais opções de ferramentas poderosas com código acessível. A transparência se torna expectativa, não exceção.

Quando existe uma alternativa que custa 10-50x menos para casos de uso equivalentes, precificação premium torna-se difícil de justificar. O Zapier, Make e outros estão sendo forçados a reconsiderar modelos de pricing e adicionar mais valor para justificar custos maiores.

Usuários são os principais beneficiados. A competição forçada pelo n8n melhora o mercado inteiro.

A automação, finalmente, pertence a todos

Durante mais de uma década, automatizar processos de negócio exigia escolher entre simplicidade cara ou poder inacessível. O n8n quebrou essa dicotomia falsa. Ao combinar código aberto, self-hosting gratuito, precificação justa e capacidades técnicas de primeira linha, a plataforma demonstrou que é possível democratizar sem diluir. Os números contam a história:

  • De projeto paralelo de um desenvolvedor em Berlim para unicórnio de $2,5 bilhões em seis anos.

  • De 30.000 para 163.000+ estrelas no GitHub.

  • De zero para 230.000+ usuários ativos e 3.000+ clientes enterprise.

Mas os números subestimam o impacto real. Cada startup hoje que consegue automatizar desde o dia um, com custo praticamente zero. Cada equipe de TI que economiza centenas de horas mensais. Cada desenvolvedor que finalmente tem uma ferramenta que respeita sua inteligência. Cada empresa que consegue manter compliance sem sacrificar eficiência.

O futuro da produtividade está em fazer menos do que não importa para fazer mais do que importa. O n8n é uma ferramenta para esse futuro.

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